5. BRASIL 12.12.12

1. A ESCOLHA DA FAB
2. DOCUMENTOS SECRETOS DA DITADURA
3. O SCULO DE OSCAR NIEMEYER
4. OPERAO ABAFA ROSE

1. A ESCOLHA DA FAB
Documentos obtidos por ISTO revelam preferncia da Aeronutica pelo caa americano F-18. A tendncia  de que Dilma Rousseff atenda aos anseios dos militares
Claudio Dantas Sequeira

 CU DE BRIGADEIRO - O caa F-18 Super Hornet, alm de ter um desempenho melhor, segundo a FAB, custa quase a metade do valor orado pela Dassault
 
Um relatrio de anlise da Comisso Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (Copac) da Fora Area Brasileira (FAB), obtido com exclusividade por ISTO, deve provocar uma reviravolta na concorrncia para a compra dos caas, que se arrasta desde o governo FHC. O documento mostra que, contrariando as especulaes em torno do programa F-X2, a FAB optou pelo caa americano F-18 Super Hornet, produzido pela Boeing. Entre os concorrentes esto o modelo francs Rafale e o sueco Gripen NG. O relatrio estava pronto havia dois anos, mas tinha sido engavetado pelo ento ministro da Defesa, Nelson Jobim. Na ocasio, o ministro levou ao Palcio do Planalto a preferncia pelo Rafale, uma opo poltica que no considerou as anlises tcnicas contidas no documento produzido pela Aeronutica. O ex-presidente Lula chegou a tornar pblica uma preferncia pelos franceses e com frequncia emitia sinais de exagerada proximidade com o ex-presidente da Frana Nicolas Sarkozy. Diante da predileo da FAB pelo avio americano, resta saber agora qual ser a deciso final da presidenta Dilma Rousseff. A tendncia  acompanhar o relatrio tcnico. Dilma revelou a assessores que est disposta a bater o martelo sobre os caas antes do vencimento das propostas comerciais no prximo dia 31. O que lhe interessa, tem dito a presidenta,  saber qual negcio oferecer mais vantagens ao desenvolvimento do Pas. E a FAB garante que a compra do modelo americano  a mais vantajosa.

PR-RAFALE - O ex-ministro da Defesa Nelson Jobim havia engavetado o relatrio da FAB
 
Questes como preo, custo de manuteno, prazo de entrega e desempenho operacional so exploradas a fundo pelo relatrio. O documento da FAB mostra, por exemplo, que o F-18 tem um custo de US$ 5,4 bilhes para o pacote de 36 aeronaves.  quase a metade dos US$ 8,2 bilhes orados no Rafale. O Gripen NG, oferecido a US$ 4,3 bilhes,  o mais barato dos trs, mas trata-se de um avio em desenvolvimento nunca testado em combate na verso oferecida, pondera a FAB. O caa francs, alm de mais caro que os demais, possui valor de hora-voo de US$ 20 mil. O dobro do jato americano (US$ 10 mil) e trs vezes o do sueco (US$ 7 mil). Para justificar a preferncia pelos caas americanos, o relatrio traz outro dado nunca mencionado nas discusses anteriores sobre o FX-2: o armamento empregado no Super Hornet  mais econmico e possui maior diversidade que o de seus concorrentes. No documento, a FAB alerta tambm para a necessidade de uma soluo imediata sobre o programa de caas, em razo do risco de vulnerabilidade a que o Brasil estar exposto em breve. A importncia estratgica do F-X2 torna-se evidente diante de um quadro de obsolescncia, alerta a FAB.

Outro documento tambm obtido pela reportagem da ISTO poder pesar na deciso da presidenta. Trata-se de uma minuta de cooperao estratgica firmada em sigilo entre a Embraer e a Boeing, pela qual a companhia americana  maior fabricante mundial de aeronaves  se compromete a entregar o maior programa de off-set (contrapartida) j oferecido pelos EUA a qualquer pas fora da Otan. O acordo estabelece, por exemplo, apoio  comercializao dos Super Tucanos A-29 e do avio de transporte KC-390 em mercados inacessveis ao Brasil. Tambm est prevista a construo conjunta de um avio de treinamento para pilotos, que poder ser vendido a pases da Amrica Latina, a integrao de armamentos nos Super Tucanos e o desenvolvimento de um jato multiemprego de quinta gerao para ser comercializado em nvel mundial. Num gesto indito, a Boeing se compromete ainda a abrir um centro tecnolgico no Brasil. Oficialmente, a Embraer diz desconhecer o documento, mas garante que est capacitada para trabalhar em parceria com quaisquer dos fornecedores. Num encontro recente com o comandante da FAB, Juniti Saito, a presidenta Dilma foi enftica. Precisamos ajudar a Embraer, disse. No ficou claro se ela j havia decidido pelo F-18, mas assessores garantem que a anlise tcnica nunca pesou tanto. 
 
Fotos: MC3 Jason Johnston; MARCOS DE PAULA/AE


2. DOCUMENTOS SECRETOS DA DITADURA
ISTO teve acesso a arquivos que foram escondidos por delegado do Dops. Os papis abrem uma nova linha de investigao para a Comisso da Verdade e mostram como agentes da represso tentaram sumir com provas dos Anos de Chumbo
Rodrigo Cardoso 

Cena 1: Olhvamos, ainda, a noite pela janela quando ouvimos o barulho longe dos tanques que se aproximavam. Espervamos o pior desde a publicao do AI-5, quatro dias antes. O 17 de dezembro de 1968 foi assim para mim. Eu morava no 209-A. As paredes estavam forradas de fotos do Che Guevara, em algumas, como um gal de Hollywood, de cala jeans, sem camisa, fumando Havanas, quando dois policiais entraram. Numa moldura bonita, presente do meu irmo, havia uma foto do meu dolo na sua pose clssica, aquela com estrelinha na frente da boina. Um dos policiais foi objetivo, pegou o quadro da parede e falou: Este merece ser levado. Num instante o quadro j estava em minhas mos. Eu disse: Esse no. E, j com o quadro no cho, eu pisoteava o pobre Che, como uma possessa, enquanto me desculpava em voz alta com ele: Desculpe, Che, mas no vou deixar que eles te levem.
 
Esse  o incio do depoimento da aposentada paulista Rute Maria Bevilaqua, 66 anos. Em 1968, aos 22 anos, ela cursava fsica e morava em um dos apartamentos do Conjunto Residencial da Universidade de So Paulo (Crusp), quando ele foi tomado por agentes da ditadura da polcia e do Exrcito  caa de comunistas.

HISTRIA - Torturado e preso nos Anos de Chumbo, o professor universitrio Djalma de Carvalho, 63 anos, reencontrou seu passado nos documentos achados na fazenda do delegado Machado

Cena 2: A caminho do presdio em um nibus, um policial, ao lado da porta do motorista, portava uma arma de cano longo e olhava pra gente. Quando o nibus ia entrar na rua Rego Freitas, na esquina com a Consolao, eu joguei para fora um livro com um bilhete na primeira pgina. Nele, eu dava dois nmeros de telefone, explicava que estvamos sendo todos presos, centenas de pessoas, e pedia que quem pegasse o livro, por favor, avisasse meus pais. Imagine o tamanho da idiotice e das consequncias: meus pais eram comunistas com vrias passagens pelo Dops (o extinto e temido Departamento de Ordem Poltica e Social). Naquele dia, o mais comprido da minha vida, mais emoes nos esperavam.
 
Rute estava entre os 800 estudantes presos por autoridades do governo no Crusp, um centro de mobilizao de jovens contra a represso do governo militar da poca. Nesse episdio que marcou a histria da maior universidade brasileira, tropas do Exrcito e tanques evacuaram o prdio e portas de apartamentos foram abertas a pontaps enquanto soldados ficavam de tocaia entre galhos de rvores. Fichada pela Delegacia Especializada de Ordem Poltica, Rute foi acusada de transportar lajotas e molotov na invaso do Crusp. Assim est escrito nos registros dela que ISTO revela com exclusividade. A ficha no estava nos arquivos do Dops que foram liberados para consulta pblica em 1994. O documento no tinha vindo a pblico at hoje porque o ex-delegado do Dops Tcito Pinheiro Machado o escondeu por dcadas em sua residncia.

INVASO - Filha de comunistas, Rute Maria Bevilaqua, 66 anos, foi um dos 800 estudantes presos por autoridades do governo no Conjunto Residencial da Universidade de So Paulo (Crusp)

A ficha de Rute foi encontrada por acaso por um ex-cortador de cana em uma casa abandonada no meio de uma fazenda que pertenceu a Machado, em Jaborandi, interior de So Paulo. No total, foram descobertas ali 110 fichas de pessoas tachadas de subversivas. E mais: boletins culturais censurados, um manual de subverso e contrassubverso que ensinava policiais a identificar os comunistas e envelopes classificados como secreto, confidencial e reservado de ministrios, embaixadas, universidades e igrejas enviadas a um outro delegado do Dops, Alcides Cintra Bueno. Todo esse material  que ainda no foi colocado  disposio para consulta porque vem passando por uma espcie de restauro feito pelo Arquivo Pblico de So Paulo, para onde ele fora enviado aps ser encontrado em 2007  foi compilado minuciosamente em um livro, Memrias da Resistncia (Compacta Grfica e Editora), cujo lanamento est previsto para sbado 8 na cidade paulista de Franca.
 
Sua publicao, alm de trazer  luz um material indito, mostra que agentes da represso tentaram sumir com provas sobre os Anos de Chumbo. A ocultao em ambiente privado de documentos produzidos em rgos pblicos do regime militar era o modus operandi entre as autoridades e estabelece uma nova linha de investigao para a Comisso da Verdade. Essa documentao encontrada na fazenda em Jaborandi abriu um precedente para se averiguar se h outros materiais espalhados por a que no chegaram at ns, afirma a historiadora Rafaela Leuchtenberg, diretora do Fundo Dops do Arquivo Pblico, para onde foram recolhidas em 1991 todas as informaes produzidas pelo Dops que se encontravam em posse da Polcia Federal. No tnhamos no acervo fichrios da delegacia de ordem poltica, como as achadas em Jaborandi, mas apenas da delegacia de ordem social. Esse caso precipitou uma recomendao feita pelo Ministrio Pblico Federal  Secretaria de Segurana Pblica de So Paulo para que toda a documentao produzida nas delegacias do Estado na ditadura militar (1964-1985) fosse enviada ao Arquivo Pblico.

RESGATE - Buscas na fazenda do delegado do Dops Tcito Machado, em Jaborandi, onde um ex-cortador de cana encontrou centenas de documentos da represso

Com isso, desde as fichas encontradas em Jaborandi, agora reveladas por ISTO, outros trs conjuntos de materiais chegaram ao rgo. Dois so emblemticos. De Santos, em 2010, vieram 11,6 mil pronturios e aproximadamente 40 mil fichas produzidas por uma sucursal do Dops que atuava no litoral paulista. E em maio, 14 pacotes de documentos chegaram da cidade paulista de Apia. Um delegado da regio havia retirado o montante da delegacia e levado para casa. Com a morte dele, sua viva resolveu entregar o acervo para a polcia. O Arquivo ainda averigua o contedo das descobertas. Em Porto Alegre, em um caso semelhante registrado no fim do ms passado, 200 pginas de documentos entregues  polcia gacha pela famlia de um coronel da reserva do Exrcito assassinado comprovaram que o ex-deputado federal Rubens Paiva, desaparecido h 41 anos, foi sequestrado por militares e levado para o Destacamento de Operaes e Informaes  Centro de Operaes de Defesa Interna (DOI-Codi), no Rio de Janeiro, em 1971.
 
A papelada revela, ainda, uma estratgia dos militares para acobertar o envolvimento deles no atentado do Riocentro, em 1981. Na ocasio, uma bomba explodiu dentro de um carro estacionado naquele centro de convenes, onde aconteceria um show em comemorao ao Dia do Trabalhador, matando um agente do DOI-Codi e ferindo outro. Todos esses casos possibilitaram uma nova linha de investigao para a Comisso Nacional da Verdade (CNV), criada para apurar graves violaes de direitos humanos praticadas por agentes pblicos entre 1946 e 1988. Fao um convite aos brasileiros e brasileiras que tenham em suas casas arquivos particulares: os entreguem, afirma o ex-procurador-geral da Repblica Claudio Fonteles, coordenador da CNV, aps o recolhimento do material na casa do coronel do Exrcito em Porto Alegre.  um processo de reconstruo do seu pas. No precisa nem se identificar; basta telefonar e dizer que tem um documento.

VIOLNCIA - O aposentado Edson Jos de Senne foi preso e torturado aos 32 anos, em 1969, porque recebia o jornal

O escritrio paulista da CNV, segundo o seu coordenador Ivan Seixas, est prestes a formalizar a descoberta dos documentos na fazenda do ex-delegado Machado, em Jaborandi, e a requerer diligncias para apurar os fatos.O porqu de essa papelada ter ido parar l ainda  um n a ser desfeito, afirma o historiador Tito Bellini, professor da Universidade Federal do Tringulo Mineiro (Uftm) e um dos organizadores do Memrias da Resistncia. Alm da aposentada Rute, do Crusp  ela no foi vtima de violncia ao ser presa na universidade e nega as acusaes que constam em sua ficha , ISTO conversou com outros dois brasileiros cujas fichas tambm estavam apodrecendo na propriedade de Machado, um policial falecido em 2005, aos 79 anos. Ele figura na categoria repressores e  citado em 27 processos do projeto Brasil Nunca Mais, trabalho encabeado por um grupo de religiosos e advogados que coletaram cpias de processos polticos que tramitaram pela Justia Militar entre 1964 e 1979 para obter informaes e evidncias das violaes cometidas pelo regime militar.
 
Tanto o aposentado paulista Edson Jos de Senne, 75 anos, quanto o professor universitrio Djalma de Carvalho, 63  ligados s Foras Armadas da Libertao Nacional (Faln), de Ribeiro Preto, provavelmente a nica organizao clandestina do Brasil que no se formou a partir das capitais , foram torturados ao serem presos naqueles anos de chumbo. Nenhum, porm, teve contato ou sequer ouviu falar de Machado. Trata-se de um agente cujas aes so pouco conhecidas inclusive pela CNV, provavelmente por ele ter sido mais ligado  burocracia dos rgos repressores. Meu pai sabia, evidentemente, todos sabiam das torturas. Pau de arara era comum em delegacias at para bandidinhos, diz o filho do delegado Machado, do Dops, o tambm delegado Raul Pinheiro Machado, que mora em So Jos do Rio Preto, interior de So Paulo. Mas ele nunca torturou ningum, pelo contrrio, at livrou a barra de comunistas amigos.

REENCONTRO - Beatriz Paiva mostra parte dos documentos sobre seu pai, Rubens Paiva, desaparecido em 1971, encontrados em Porto Alegre

Em 1991, segundo Raul, ao abrir um ba na casa de veraneio da famlia, em Jaborandi, ele se deparou com documentos timbrados de rgos da polcia paulista, mas achou que a papelada no tinha valor. Certo dia, porm, seu pai o chamou para uma conversa: Filho, muitos documentos (produzidos pelo governo militar) deveriam ser queimados porque podem comprometer pessoas que, hoje, esto a se tornando notrios. Raul, assim ele conta, teria dito a Machado: Pai, acho que nada deve ser queimado. Isso  histria, tem de ser mostrado s pessoas. Pai e filho nunca mais tocaram nesse assunto. Dentro do ba, encontrado em 2007, h fragmentos de histrias como a do professor universitrio Djalma de Carvalho, quatro filhas e trs netos, morador de Paranaba, em Mato Grosso.
 
Carvalho era militante da Faln e do Movimento de Libertao Popular (Molipo) e foi preso duas vezes entre os anos 60 e 70. Na primeira me estouraram todo. Palmatria, chutes, me atiravam com as costas contra a parede... Na segunda, trouxeram um companheiro em carne viva, inteiro ensanguentado, unhas arrancadas, com a cara toda deformada. Eles o enrolaram em um pano, o colocaram na mquina de choque, ligaram fios na lngua e nas orelhas dele e mandaram eu tortur-lo, relembra Carvalho, que na Molipo escondia perseguidos polticos e os ajudava a sair do Brasil. Claro que no fiz isso. Eu o encontrei anos depois, nos abraamos e choramos muito. Tnhamos passado pelo ventre da besta e sobrevivido.
 
O aposentado Senne, de Ribeiro Preto, tambm  outro sobrevivente cuja parte da memria estava se apagando no fundo do ba da famlia Machado. Foi preso aos 32 anos, em 1969, porque recebia o jornal O Berro, o veculo de comunicao das Faln. Fiquei dois dias preso. Recebi tortura violenta. No conseguia escrever l na delegacia, meus dedos sangravam de tanto choque, conta ele, que tem problemas de audio causados por um tapa na orelha que recebeu nos pores da ditadura. Nunca contei para o meu pai as torturas que sofri. Queria poup-lo.
 
Cena final: Ms passado, no Crusp da cidade universitria, a aposentada Rute entra novamente no apartamento 209-A quase 45 anos depois de ser retirada de l  fora. Depois de fotografar para esta reportagem, lembrou de quando debruava a cabea na janela para paquerar os alunos que caminhavam l embaixo. Recordou tambm de quando, ainda criana, rezava baixinho para que o pai, um ativista do Partido Comunista Brasileiro (PCB) com sete prises na biografia, deixasse de ser comunista. Memrias de um tempo triste e feliz ao mesmo tempo, que no podem ficar sepultadas em nenhum ba particular. Para o bem do Pas.


3. O SCULO DE OSCAR NIEMEYER
Morre o maior arquiteto brasileiro, o senhor das curvas que conferiu genialidade e beleza ao mundo com suas obras espalhadas por todos os continentes
Eliane Lobato e Michel Alecrim

104 ANOS - Em 2012, Niemeyer passou por quatro internaes. Na ltima, no resistiu, mas virou imortal
 
"Sinto-me feliz com o reconhecimento de minha obra de arquiteto. Mas sinto menos orgulho do que uma convico ntima de que me dediquei ao mximo  realizao de uma arquitetura diferente, mais leve, capaz de provocar surpresa aos que a conhecem. E que procurei ser solidrio aos amigos e  minha famlia, e manter uma coerncia poltico-ideolgica diante deste mundo marcado por contradies intolerveis. A vida  mais importante do que a arquitetura. A vida, a mulher, a famlia, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar."
 
O arquiteto Oscar Niemeyer sintetizou assim, em letras grandes, soltas por folhas de papel em branco sem linhas, seu pensamento numa entrevista  ISTO  parte dela ao vivo, parte respondendo as perguntas  mo  em 2002. Essa reflexo, que pode ser vista hoje como uma reviso de sua prpria histria, resume o que era o arquiteto do sculo, ttulo que chancela a genialidade de suas obras espalhadas pelo mundo. A tristeza, portanto, atravessa fronteiras. Niemeyer faleceu na quarta-feira 5 de dezembro, no Rio de Janeiro, aos 104 anos, s 21h55, aps 34 dias internado no Hospital Samaritano, devido a uma infeco respiratria.
 
"Quando uma forma cria beleza, tem na beleza a sua prpria justificativa"
 
Niemeyer costumava dizer que no gostava de ngulos retos. Falava que as retas foram criadas pelo homem e no tm carter transformador. Por essa razo, prefere as curvas, essas sim, ddivas da natureza, capazes de dar beleza e leveza ao horizonte, aos leitos dos rios, e at ao corpo humano. As curvas de Niemeyer transformaram a paisagem urbana, inovaram, viraram escola e ganharam o mundo. O arquiteto introduziu as curvas em nosso cotidiano e, por acreditar que elas podem sempre nos conduzir a um lugar mais distante, viveu mais de 100 anos acreditando no novo.
 
Morreu cercado da famlia e falando de trabalho at os ltimos momentos de lucidez, horas antes de falecer. Reverenciado em todo o mundo, ganhou homenagens pelo Brasil. A presidenta Dilma Rousseff cedeu o Palcio do Planalto, prdio projetado por ele, para o velrio. Niemeyer foi um revolucionrio, o mentor de uma nova arquitetura. O Brasil perdeu um de seus gnios, disse a presidenta, que ofereceu honras de chefe de Estado ao maior arquiteto brasileiro. Pelo Salo Branco do Planalto, onde at hoje foram velados apenas o presidente Tancredo Neves e o vice-presidente Jos Alencar, passaram autoridades e cerca de trs mil pessoas.

HOMENAGEM - O corpo do arquiteto foi velado com honras de chefe de Estado no Planalto, em Braslia 
 
A simplicidade foi a marca de toda a vida do arquiteto. No escritrio na avenida Atlntica, em Copacabana, onde recebia gente de vrias nacionalidades. Os mveis eram elegantes, alguns desenhados por ele, mas nada era luxuoso. J sua casa na rua Prudente de Moraes, via de muito trnsito e, por isso, das menos nobres de Ipanema, era um refgio que s abria aos mais amigos. A coerncia entre o que pregava e como levava a vida  indiscutvel. Nunca ostentou, nunca exibiu sinais de riqueza. Na arquitetura de suas curvas, conseguiu o que queria: realizar obras belas, marcantes, democrticas, com espaos desenhados para o homem circular  vontade. Espalhadas por vrias cidades brasileiras e por todos os continentes, elas tiveram impacto em vrias geraes. Seu trabalho visionrio teve uma influncia profunda, afirmou a arquiteta iraquiana Zaha Hadid, vencedora do prestigiado Prmio Pritzker. Ele me deu coragem para seguir minha prpria arquitetura de total fluidez.
 
Em Niteri (RJ), o Museu de Arte Contempornea (MAC), parece uma nave espacial sobre as guas. A estrutura suspensa no ar e apoiada por uma fina base tambm leva  comparao com um clice. Mas Niemeyer, ao idealizar a obra, disse que pensou numa flor que se abre na encosta, s margens da Baa de Guanabara. Eu andei pelas rampas do museu. Elas so quase como uma dana no espao, convidando voc a ver o prdio de vrios ngulos antes de entrar.  absolutamente mgico, resumiu o arquiteto ingls Norman Foster, tambm ganhador do Pritzker. Poucas pessoas tm a chance de conhecer seus heris e sou grato por ter tido a oportunidade de passar um tempo com ele no Rio no ano passado.

Alm de desafiar a imaginao, as criaes do mestre da arquitetura moderna tm em comum a capacidade de causar empatia imediata. Os traos da vela de uma jangada podem ser vislumbrados nas colunas do Palcio da Alvorada, em Braslia, e um olho humano salta a quem observa o museu que leva seu nome em Curitiba. De um trao nasce a arquitetura. E quando ele  bonito e cria surpresa, ela pode atingir, sendo bem conduzida, o nvel superior de uma obra de arte, definiu Niemeyer no livro Conversa de Arquiteto. A ambio artstica foi assim rendendo construes com sua assinatura, que podem ser comparadas a imensas esculturas e se destinam a um duplo papel: ser til ao homem e embelezar o mundo.
 
A paisagem da Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte ficou muito mais bela com a instalao, na dcada de 1940, da Igreja de So Francisco de Assis em formato de montanhas, as mesmas que despontam em Minas. A paisagem de So Paulo, dominada pelas linhas retas, ficou mais humanizada com o ondulado edifcio Copan, da dcada de 1950, hoje um carto-postal da cidade. A Universidade de Constantine, na Arglia,  um conjunto arquitetnico da capital do pas africano elevado  condio de arte. Um de seus prdios, feito em formato de livro,  um dos principais encantos de Niemeyer fora do Brasil. Um universo curvo saiu de sua prancheta para entrar no cotidiano das metrpoles. O arquiteto franco-suo Le Corbusier (1887-1965), referncia no s para o brasileiro como para uma gerao de profissionais no mundo, dizia que Niemeyer tinha as montanhas do Rio dentro dos olhos.

MODELOS DE CURVAS - Prdios cones do arquiteto: o Museu de Arte Contempornea, em Niteri, o edifcio Copan, em So Paulo, e o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba
 
Carioca, Niemeyer dizia admirar o Rio sob todos os aspectos. Gostava da forma alegre do povo, das praias  s quais raramente ia , do samba, da natureza exuberante. Da cidade onde nasceu, ele absorveu tambm a proximidade entre a erudio e o popular, entre pobres e ricos. Neto do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Antonio Augusto Ribeiro de Almeida (1838-1919), sua casa, no bairro das Laranjeiras, zona sul do Rio, chegou a ser frequentada pelo ex-presidente Epitcio Pessoa (1865-1942). A origem elitista no o impediu de fazer inmeros amigos nas rodadas de sinuca do Caf Lamas, no largo do Machado, na mesma regio, ou nas noitadas da Lapa, no Centro. Outra paixo da juventude do arquiteto foi o futebol. Quase jogou no Flamengo, mas ingressou mesmo foi no juvenil do Fluminense, onde os negros entravam pela porta dos fundos e tinham que se maquiar de brancos, para profundo desgosto dele, que depois se tornaria um comunista convicto at o fim da vida.
 
"O que me chama ateno  a curva livre e sensual"
 
A boemia aproximou Niemeyer do povo, mas o afastou dos estudos. S com 21 anos ele ingressou na Escola Nacional de Belas Artes para cursar arquitetura, apesar de demonstrar talento para o desenho desde criana. Nos primeiros anos de escola, pouco compareci s aulas. Ajudava meu pai na tipografia e somente nas horas de folgas podia frequent-las. Mas em pouco tempo os assuntos da arquitetura absorviam-me inteiramente, contou Niemeyer. J casado com Annita Baldo, com quem conviveu at a morte dela, em 2004, ele passou sua poca de vacas magras.
 
Formado, trabalhou com o urbanista Lcio Costa (1902-1998). O escritrio ganhou do ministro Gustavo Capanema a incumbncia de projetar a nova sede do Ministrio da Educao e Sade. Sob a batuta do experiente Costa, ele teve seu croqui elogiado pelo consultor do projeto, Le Corbusier. Nele, surgiam os famosos pilotis do prdio, que se tornaram um marco do modernismo no Brasil. A mesma caracterstica j estava presente no prdio da Obra do Bero, instituio filantrpica, na Lagoa Rodrigo de Freitas, o primeiro trabalho individual de Niemeyer. Curioso, fiz um croqui diferente, em funo do primeiro estudo de Le Corbusier. Carlos Leo (outro arquiteto do escritrio) gostou da soluo, Lcio quis v-la e eu, que nenhuma pretenso tinha de mudar o projeto em execuo, joguei o croqui pela janela. Lcio mandou busc-lo e o adotou. Nesse momento, senti que no seria um arquiteto medocre, que compreendia a arquitetura contempornea e nela podia atuar corajosamente, revelou Niemeyer no livro Oscar Niemeyer, do jornalista Marcos S Corra.

Em 1940, ele conheceu o ento prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek (1902-1976), que o convidou para projetar o conjunto da lagoa da Pampulha, marco na carreira de Niemeyer. Ele ganhou projeo e, pouco depois, participou da construo da sede das Naes Unidas, em Nova York. O secretrio-geral da ONU Ban Ki-moon lamentou o sua morte: O que fez dele um excelente arquiteto no foi apenas o seu vigor e talento. Ele imbuiu seu trabalho com um forte senso de humanismo e engajamento global, afirmou. O maior desafio, porm, ainda estava por vir.
 
Eleito presidente, Kubitschek o convidou para construir, do nada, a nova capital federal. Mesmo filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde 1945, Niemeyer tinha carta branca para executar suas ideias mirabolantes  e a maior delas foi mesmo as colunas com pontas finas dos palcios da Alvorada, do Planalto e do Supremo Tribunal Federal (STF). Naquela poca, o voo do Rio para Braslia levava trs horas. Na primeira viagem de Kubitschek, ele foi junto. Sentou-se ao lado do ministro da Guerra, o general Henrique Teixeira Lott, que lhe disse: Dr. Niemeyer, o senhor vai projetar prdios bem clssicos para ns, no ? Ele respondeu: General, o senhor, na guerra, prefere arma clssica ou moderna?

NOVOS HORIZONTES - O Palcio da Alvorada, a Catedral de Braslia e o complexo da Pampulha, em Minas
 
Apesar da proximidade com os polticos e de ser o autor dos projetos que viraram smbolos das instituies brasileiras, o comunismo declarado de Niemeyer sempre incomodou os militares. Nunca foi preso, mas foi chamado a depor diversas vezes, inclusive antes do golpe de 1964. Depois que os generais tomaram o poder, sua vida ficou mais difcil. A revista Mdulo, fundada por ele em 1955, foi saqueada. O projeto para o aeroporto de Braslia, rejeitado. Niemeyer pediu demisso da Universidade de Braslia em reao s interferncias do regime. A sada foi o exlio na Frana, a partir de 1967. Na semana passada, o presidente francs Franois Hollande lembrou da ligao do arquiteto com o pas que o acolheu. Ele tinha uma relao privilegiada com a Frana, no apenas porque construiu vrios edifcios cuja modernidade e originalidade causavam espanto aos visitantes, mas tambm porque ele morou aqui enquanto esteve exilado, disse.
 
"Tanto faz ser feliz ou infeliz, a vida  um sopro, um minuto"
 
O retorno, aos 72 anos, estava longe de marcar a aposentadoria do maior arquiteto brasileiro. Quando chegou, Niemeyer iniciou nova fase de vasta produo, j instalado em seu escritrio no topo do edifcio Ypiranga, onde deu expediente at quando pde. Mesmo com idade avanada, trabalhou intensamente. Niemeyer produziu at o final e assinou ao longo da carreira mais de 130 projetos, dos quais um tero nunca saiu do papel, como um centro de msica para a cidade do Rio. Alm da arquitetura, lanou o romance Diante do Nada, em 1999. Dedicou-se tambm ao design de mveis,  pintura e  escultura.
 
O comunismo ferrenho de Niemeyer acabou ganhando um tom anedtico. O prprio ex-presidente cubano Fidel Castro, de quem o brasileiro era amigo, se referiu aos dois como os ltimos comunistas do mundo. O arquiteto nunca deixou de elogiar o ditador sovitico Joseph Stalin (1878-1953), acusado de uma srie de crimes no perodo em que governou o pas. Quando o regime estava ruindo, em 1991, publicou polmico artigo defendendo ao de militares linha-dura que tentaram reverter o fim da Unio Sovitica. A oposio ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor, em 1992, tambm causou espanto. Niemeyer sempre justificou suas posies na coerncia e se orgulhou de se manter fiel s suas convices. Mas o trabalho no se misturava aos ideais. O fato de ser ateu no o impediu de projetar quatro igrejas catlicas, uma mesquita, um templo da Igreja Universal do Reino de Deus e a Catedral de Braslia, alm de diversas capelas. Mesmo comunista, elaborou o projeto de vrias manses e da sede de quatro bancos.

Em 2006, com quase 100 anos, Niemeyer casou-se pela segunda vez com sua secretria, Vera Lcia Cabreira. O arquiteto s teve uma filha de seu primeiro casamento, Anna Maria, com quem trabalhou no design de mveis. Ela faleceu em junho, aos 82 anos. Embora idolatrado, Niemeyer tambm foi alvo de crticas, principalmente por fazer obras que deixavam a funcionalidade em segundo plano. Ora faltava um corrimo para uma escada, ora era o espao para o ar-condicionado no previsto, ora era a ausncia de paisagismo. A prpria opo pelas formas curvas e pelas estruturas que se sobrepem  utilidade encontrou opositores. Aos crticos, sempre tinha uma resposta: Quando uma forma cria beleza, tem na beleza a sua prpria justificativa.

Colaboraram: Mariana Brugger, Tamara Menezes, Wilson Aquino e Izabelle Torres
 Fotos: Adriano Machado; Arquivo O Cruzeiro/EM/D.A Press; JAMIL BITTAR; MARCELO SAYAO; Julio Alcantara/CB/D.A Press; Ichiro Guerra; Florian Knorn; Rene Burri / Magnum; JUAN ESTEVES


4. OPERAO ABAFA ROSE
Diante das ameaas da ex-chefe de gabinete da Presidncia Rosemary Noronha, integrantes do PT montam estratgia para acalm-la e evitar que suas revelaes causem mais transtornos para o partido e para o governo
 Josie Jeronimo

Duas semanas depois de sair do conforto do anonimato que lhe permitia operar nos bastidores do poder, a ex-chefe do gabinete da Presidncia em So Paulo Rosemary Nvoa de Noronha, indiciada na Operao Porto Seguro, ainda  um pesadelo para a cpula petista. Assustada com a possibilidade de ser abandonada por seus antigos padrinhos, Rose vem emitindo recados nada republicanos para integrantes do governo e do PT. Em conversas com interlocutores, Rose ameaou contar tudo o que sabe e arrastar novos personagens para o epicentro do esquema desvendado pela PF. Diante disso, nos ltimos dias foi articulada uma verdadeira operao abafa na tentativa de tentar serenar os nimos da secretria de temperamento explosivo. O objetivo  evitar que o escndalo gere danos maiores sobretudo para autoridades do governo e para o prprio ex-presidente Lula, com quem Rosemary mantinha uma relao antiga.

SEMPRE ELE - Presidente do Instituto Lula e assessor do ex-presidente, Paulo Okamotto esteve no apartamento de Rosemary Noronha na tera-feira 4
 
Para acalmar a ex-secretria da Presidncia em So Paulo, foram escalados personagens de peso da cpula petista. Entre eles, Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, e o ex-ministro Luiz Dulci. At o ex-presidente Lula entrou no circuito e conversou com Rose, conforme antecipou na ltima semana a colunista Mnica Brgamo. No Congresso, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) e o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) foram destacados para fazer o meio-campo com os parlamentares e impedir no nascedouro a instalao de uma CPI. No campo jurdico, o requisitado advogado Celso Vilardi, parceiro do ex-ministro Mrcio Thomaz Bastos em casos de grande repercusso, assumiu o caso.

A operao abafa foi montada no Instituto Lula, que se transformou numa espcie de gabinete de crise desde a ecloso do escndalo envolvendo Rosemary com a fraude de pareceres em rgos pblicos. Conforme apurou ISTO, Okamotto foi ao apartamento de Rose, no bairro da Bela Vista, na tera-feira 4. Assim que a encontrou, Okamotto percebeu que a situao era pior do que ele imaginava. A ex-secretria da Presidncia parecia transtornada. Com os cabelos desgrenhados e alterando o tom de voz, nem de longe lembrava a Rose vaidosa, flagrada na investigao da Polcia Federal trocando influncia poltica por cirurgias plsticas. Com seu jeito zen, Okamotto disse a Rose que estava falando em nome do ex-presidente Lula e que ela no ficaria desamparada. Calma, Rose. Segura firme. No vamos te abandonar. No mesmo dia, Okamotto tambm teve que ouvir as lamrias do marido de Rose, Joo Vasconcelos, e de sua filha Mirella Nvoa de Noronha. Eles reclamaram que o escndalo destruiu suas vidas. O diretor do Instituto Lula, o ex-ministro Luiz Dulci, tambm tentou convencer Rosemary a no explodir. A conversa ocorreu pelo telefone. As investidas aparentemente lograram xito, ao menos por enquanto. At o fim da semana, Rosemary havia adiado os planos de jogar gasolina em uma fogueira que o PT tenta apagar pelas beiradas.

Em outra ponta, o PT tambm conseguiu anular a influncia que o advogado Jos Luiz Bueno de Aguiar tinha sobre Rose. No incio do escndalo, Bueno divulgou nota em nome da ex-chefe de gabinete sobre as 24 viagens que ela fez ao Exterior em companhia do presidente Lula. O PT no gostou da manifestao e interpretou o gesto do advogado como autopromoo. Por isso, articulou rpido a troca do defensor. O nome de Mrcio Thomaz Bastos chegou a ser cogitado, mas o ex-ministro da Justia ponderou junto  cpula do PT que a associao de seu nome ao de Rosemary poderia atrapalhar mais do que ajudar, pois ele  conhecido como conselheiro de Lula. Assim, a escolha pendeu para Vilardi, que caiu nas graas do partido aps livrar o ex-tesoureiro do PT Delbio Soares de uma pena de dois dgitos no julgamento do mensalo. Delbio foi condenado a oito anos e 11 meses. Os petistas temiam que o ex-tesoureiro tivesse a maior punio entre os rus do ncleo poltico.

Vilardi no adianta detalhes da estratgia de defesa, mas diz que a primeira orientao dada a sua cliente foi o silncio. Assumi o caso agora. Ela no saiu do Pas. Est em So Paulo, vivendo normalmente. Nesse momento, no pode nem pensar em falar nada. No falar e aparecer o mnimo possvel foram os conselhos do advogado a Rose. Fechada no apartamento do bairro da Bela Vista, onde mora, Rose agora vive longe da vida de mimos e bajulaes que tinha  frente do gabinete da Presidncia. Com o rosto estampado em jornais, revistas e televiso, a ex-chefe de gabinete j no sai s ruas sem ser incomodada e cumpre uma espcie de priso domiciliar voluntria desde que as investigaes da Polcia Federal a apontaram como operadora de um esquema de corrupo e trfico de influncia. Nem os vizinhos e porteiros do prdio a deixam em paz. Em busca de um semianonimato, ela fechou o apartamento. Desde a quarta-feira 5, sumiu dos olhos dos moradores do bairro da Bela Vista. 

Convencido de que, ao menos por ora, conseguiu acalmar os nervos de Rose, o governo passou a se dedicar ao Congresso. A primeira estratgia foi chamar os inimigos para um pacto de cavalheiros e evitar uma CPI. O prprio Lula procurou o alto comando do PSDB e apelou para o bom-senso. Na conversa, segundo parlamentares do PSDB ouvidos pela Isto, o ex-presidente afirmou que a oposio faz seu papel ao questionar as denncias de corrupo no governo, mas defendeu a importncia de manter a Operao Porto Seguro no mbito das instituies democrticas, evitando ataques  vida pessoal dos envolvidos. Os tucanos concordaram e confessaram a Lula que no se sentiriam confortveis apelando para detalhes da vida ntima de ningum. Os oposicionistas avisaram, no entanto, que no pouparo o chefe da Advocacia-Geral da Unio (AGU), Lus Incio Adams, nem qualquer um dos gestores flagrados na investigao.

Escaldado, o governo mobilizou os parlamentares aliados no Congresso. No Senado, o lder do governo Eduardo Braga (PMDB-AM) comandou a tropa de choque na audincia pblica realizada na quarta-feira 5, para ouvir o ministro da Justia Jos Eduardo Cardozo, e o ministro Adams. PT e PMDB se uniram para esvaziar a reunio e deixar a oposio falando sozinha. Durante quase quatro horas de sesso, da ala governista apenas os senadores Jos Pimentel (PT-CE) e Eduardo Braga se dirigiram a Cardozo e Adams. Eles usaram o tempo, porm, para elogiar as instituies brasileiras, que, segundo eles, investigam doa a quem doer irregularidades na administrao pblica. Na mesma quarta-feira 5, Lindbergh Farias (PT-RJ) foi encarregado pela cpula do PT de articular as bancadas para barrar requerimentos que possam convocar Rosemary a prestar esclarecimentos no Congresso. Na Cmara, a misso de puxar o freio e chamar os deputados da base para a operao abafa foi dada a Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). O PT disse a Alves que a atuao no escndalo Rosemary ser o teste final de lealdade que o governo precisa para entregar ao PMDB a presidncia das duas Casas no prximo ano. Em fevereiro, o deputado peemedebista ser o candidato apoiado pelo PT para comandar a Cmara. O PMDB topou a misso de entrar na operao de blindagem a Rosemary, mas avisa que cobrar a fatura na reforma ministerial prevista para o prximo ano. 
 
Fotos: Pedro Ladeira/Frame; Magdalena Gutierrez/Valor; Jos Varella/CB/D.A Press; Adriano Machado/ag. isto

